Este artigo foi escrito em 2015 pelo falecido Fernando Ka, mas é como o vinho do porto.
A recente crise tem a ver com a prática ancestral da velha guarda paigeísta habituada a viver sugando erário público
Depois da independência, o PAIGC considerou-se dono e senhor do país, alegando motivos de ter sido o libertador do povo, como se isso fosse a verdade absoluta e indiscutível.
O povo da Guiné sempre se bateu pela sua liberdade contra o domínio português, desde há muito tempo e muito antes da existência do PAIGC. Basta lembrar a chamada guerra da pacificação de 1913 a 1915 em que foi morto em combate o comandante do exército colonial, o capitão João Teixeira Pinto.
Ninguém e nem movimento algum consegue libertar um povo sem que este esteja envolvido de corpo e alma na luta pela sua liberdade. A verdade é que nesta luta tem de haver, necessariamente, uma liderança, papel que o PAIGC exerceu com o sucesso inegável. Mas daí querer arvorar-se como libertador é uma mera pretensão que o povo guineense não devia aceitar. Infelizmente, a operação de castração mental levada a cabo pelo partido “libertador” e cimentado pela desumana repressão e carnificina fez com que o povo adormecesse com o medo de questionar e refletir sobre a verdadeira história da luta pela independência, acabando por interiorizar no seu subconsciente a conclusão sobre a “verdade” partidária, partindo de falsas premissas.
O PAIGC elegeu a independência como a sua única causa durante a luta da libertação e abandonou as outras subsequentes de maior importância para organização do estado de direito, com vista ao desenvolvimento, transformando-se num partido dos casos: intriga, corrupção, peculato, nepotismo, enriquecimento fácil e disputa desenfreada de lugares no governo ou nos altos cargos públicos. A independência era o seu único objectivo, uma vez conseguida, achou a sua missão terminada. Então, chegou o momento de pedir contas ao povo pelo que tinha feito nas matas para a sua “libertação”. Se o PAIGC julga ser credor da dívida da liberdade do povo, que fique a saber que a referida dívida já foi saldada de há bastante tempo com os juros incomensuráveis. O que o povo agora espera deste partido é que o deixe em paz, abandonando a cena da política nacional, porque se tem revelado incapaz de lidar com os problemas do país, desde que chegou ao poder.