A revisão do texto da lei fundamental é proposta pelo académico Emílio Kafft Kosta, autor de um livro, em parceria com Aníran Kafft Kosta, que faz um diagnóstico da situação política e constitucional da Guiné-Bissau.
No livro "Constituições da Guiné-Bissau e Textos Afins" são lançadas pistas para o futuro, com vista a resolver os conflitos que o país tem vindo a conhecer nos últimos anos.
"Isto é totalitarismo", desabafa Emílio Kafft Kosta sobre a Guiné-Bissau
Jorge Miranda e Emilio Kafft Kosta no lançamento do livro
Segundo Emílio Kafft Kosta, professor de Direito Constitucional na Universidade de Lisboa, as crises políticas cíclicas, consideradas um dos fatores de bloqueio do desenvolvimento da Guiné-Bissau, têm a sua origem na interpretação errada que os atores políticos fazem das várias versões da Constituição, desfazadas do texto original.
O sistema em vigor é semi-presidencial, embora seja notório um pendor presidencial em certas competências, nomeadamente quando o texto diz que o Presidente da República preside ao Conselho de Ministros sempre que entender. Esta é uma das imperfeições apontadas pelo professor em entrevista à DW África. "Tenho uma inclinação para um sistema presidencial, mas não é este sistema presidencial que estão a desenhar em Bissau. Isto não é presidencialismo. Isto é totalitarismo", defende.
O académico guineense considera a situação grave porque põe em causa a segurança jurídica. "A questão passa pelos atores políticos que nós temos. Enquanto não tivermos atores políticos capazes de interpretar de boa fé a Constituição e aplicá-la, vamos ter permanentemente este problema", avisa. Porque, a seu ver, não garante uma Constituição. "É um bom caminho, mas não é todo o caminho. O outro caminho é feito pelas partes que estão na disputa política, pela sociedade política, pela sociedade em geral e quando há empatia desta última e quando há má fé dos que detêm o poder nenhuma Constituição, por melhor que seja, será capaz de resolver os nossos problemas".
Lacunas e conflitos
Kafft Kosta aponta lacunas e aspetos que carecem de regulação na Constituição, o que dá azo a conflitos entre instituições democraticamente eleitas, a exemplo da última crise que opôs a Presidência da República e o Governo.
"Apesar de tudo, se as partes estivessem munidas do espírito de extrair o máximo desta Constituição que é extremamente imperfeita – mas é a que está em vigor – creio que não chegaríamos a soluções dramáticas que temos vindo a registar ao longo de muitos anos".
A revisão do texto constitucional, sob a iniciativa da Assembleia Nacional Popular, é imperiosa, aconselha o professor, que se mostra cada vez mais céptico quanto à suficiência de uma boa Constituição para a Guiné-Bissau. É importante que este passo seja dado, mas, avisa o académico, "a pressa é inimiga da boa decisão".
"A pressa oportunisticamente assumida é inimiga de uma boa Constituição. Ela precisa de tempo, de maturação, de consensos . E quando há um clima em que cada uma está a puxar para o seu lado, o mais certo é que tenhamos uma Constitução em que as outras entidades não se reconheçam e temos caldo preparado para que tudo dê mal".
A revisão do texto constitucional, sob a iniciativa da Assembleia Nacional Popular, é imperiosa, aconselha o professor, que se mostra cada vez mais céptico quanto à suficiência de uma boa Constituição para a Guiné-Bissau. É importante que este passo seja dado, mas, avisa o académico, "a pressa é inimiga da boa decisão".
"A pressa oportunisticamente assumida é inimiga de uma boa Constituição. Ela precisa de tempo, de maturação, de consensos . E quando há um clima em que cada uma está a puxar para o seu lado, o mais certo é que tenhamos uma Constitução em que as outras entidades não se reconheçam e temos caldo preparado para que tudo dê mal".
Reformas necessárias
A sociedade guineense, acrescenta, deve estar aberta à discussão e ao diálogo, "podendo optar pelo sistema parlamentar, presidencial ou semi-presidencial sem grandes dramas, mas que seja um sistema ancorado na terra". Esta é uma das reformas necessárias para a estabilidade política na Guiné-Bissau, defende Paulo Gorjão, diretor do Instituto Português de Relações Internacionais e de Segurança (IPRIS).
"Não julgo que neste momento haja condições políticas para rever a Constituição, mas eu acho que é uma questão de tempo. O que é necessário é uma clarificação, de algum modo, dos mecanismos de legitimidade do poder sem criar pólos conflituantes. Isso parece-me essencial. Agora, isso não é garantia de coisa nenhuma. Não estou a dizer que basta mudar a Constituição para se resolverem os problemas da Guiné-Bissau".
Depois da disponibilidade manifestada pela comunidade internacional em apoiar o país, "a iniciativa está agora do lado da Guiné-Bissau”, alerta o politólogo português. "Portanto, situações de crise política como esta última que ocorreu é não somente desnecessária como profundamente contraproducente. Espera-se que episódios como estes não se voltem a repetir".
Para o constitucionalista português Jorge Miranda, o livro "Constituições da Guiné-Bissau e Textos Afins" é mais um contributo útil para o ordenamento jurídico e, consequentemente, para a construção da unidade do Estado da Guiné-Bissau. Jorge Miranda sublinhou que, neste caso, a unidade do Estado é fundamental para a unidade nacional. Fonte: DW