sábado, 7 de fevereiro de 2015

SOKAR BARRA: O DESPERTAR DAS MULHERES NO EGITO

Sokar Barra («Açúcar à Parte») é um documentário de 2013 sobre o turismo sexual no Egito. Este é gerido por intermediários e apanha nas suas redes muitas das mulheres pobres do país, tendo como base uma ferramenta totalmente legal: o matrimónio.
 
Foi «quase por acaso» que Basel Ramsis, o realizador, viu nascer este documentário, filmado em três aldeias nos arredores de Gizé (Al Hawamdeya, Al Azazeya e Abu El Nomros). As imagens foram todas recolhidas num momento-chave na história do Egito – de 29 de junho a 7 de julho de 2013, ou seja, aquando da queda do Presidente Mohamed Morsi. «Pensei que poderia aproveitar. Porque parece-me que uma parte muito importante da revolução egípcia está nas mulheres», explicou Ramsis, cineasta, ativista e colaborador de media, ao jornal The Huffington Post. «Também estava interessado nas propostas de reforma da Constituição que os islamitas queriam impor. Já se tinha alcançado uma grande conquista social, proibindo-se por lei o casamento de raparigas menores de 16 anos, mas agora (na altura) alegavam que uma mulher poderia ter a menstruação a partir dos 9 anos – e que, por isso, mesmo não estando o corpo preparado para ter um filho, as meninas poderiam sempre casar com um homem mais velho e ter relações sexuais com as suas coxas».
 
As palavras de Ramsis são duras. Lembra os casos em que se aceitou um breve casamento, com apenas alguns dias de encontros sexuais e a que se seguia um divórcio. Vê aqui manifestações de desespero: «O filme não julga nem justifica. Mas pergunta: o que pode fazer um pai que não tem um prato de comida para dar aos filhos?».
 
«Embora existam muitos fatores, como a educação ou religião, a chave é a injustiça e a pobreza. Eu sou de um bairro de classe média-alta do Cairo e lá não há este tipo de casamento», explica Ramsis. O negócio sexual está legalizado no Egito há anos, conta ainda o cineasta. «Surgiu nos anos 70, com a subida dos preços do petróleo e a riqueza da zona do Golfo. O problema era que no Golfo se enriquecia, enquanto no Egito as pessoas eram cada vez mais pobres.» O também ativista, que diz já ter estado detido nas prisões do Egito mais de uma vez, refere que atualmente as áreas em que ocorre o turismo sexual são sobretudo «pequenas cidades». «A rede não é grande, mas é composta sobretudo de intermediários. Gente que leva meninas a um desfile para o homem do Golfo escolher qual delas quer. E a maneira que a sociedade encontrou para justificar tudo isto foi legalizando-o com matrimónios.»
 
Importa dizer que Sokar Barra não é um «filme panfleto». A aposta estética de Ramsis para contar o drama das mulheres egípcias sem recursos é austera, simples. Uma câmara que revela granulação, nenhuma música durante os testemunhos e nenhum efeito visual, para um resultado frugal. Porque Ramsis não está interessado em dar opiniões, mas apenas em mostrar o que se passa ao espectador, para este tirar conclusões por conta própria. «Acredito que a primeira vez em que estas mulheres se atreveram a falar dos seus direitos surgiu nos últimos quatro anos», diz Ramsis. Mas, mesmo assim, foi forçado a filmá-las e a entrevistá-las em espaços de tempos muito curtos, pois estas tinham medo de que os seus pais, os maridos ou os vizinhos descobrissem o que se passava.
 
Umm Usa é talvez a presença mais marcante neste Sokar Barra. Confessa que venderia as filhas («uma parte de mim») e explica como tentou convencer a de 15 anos a casar com um médico líbio de 65 – num casamento que teria tanto de legal quanto de falso. Numa outra cena muito dura, explica que dantes era capaz de cozer pão de madrugada para o vender de manhã; mas que só pôde fazê-lo até ao dia em que a hérnia que tinha na barriga rebentou, e em que começou a sangrar pelo umbigo. Fonte: Aqui